segunda-feira, 12 de setembro de 2016

sol é para todos

NAQUELE ANO, POR RAZÕES insondáveis que estavam além da compreensão dos mais experientes profetas de Maycomb County, o Outono transformou-se efetivamente em Inverno. Segundo o Atticus, tivemos as duas semanas mais frias desde 1885. O Sr. Avery aproveitou para dizer que estava escrito na Pedra de Roseta que quando as crianças desobedeciam aos pais, fumavam ou guerreavam umas contra as outras, as estações do ano mudavam: por isso, eu e o Jem carregávamos o fardo da culpa por havermos contribuído para tais aberrações da natureza, tendo causado, portanto, tristeza nos nossos vizinhos e desconforto em nós próprios. A velha Sra. Radley morreu naquele Inverno, mas a sua morte não levantou muita poeira — o bairro raramente a via, exceto quando regava as suas canas cidreira. Eu e o Jem decidimos que o Boo finalmente a tinha apanhado, mas, para nossa decepção, quando o Atticus voltou da Casa dos Radley contou-nos que ela tinha morrido de causas naturais. — Pergunte! — sussurrou o Jem. — Pergunte ’ocê. É mais velho. — É por isso que quem tem que perguntar é ’ocê. — Atticus — comecei —, viu o Sr. Arthur? O Atticus desviou com severidade os olhos do jornal e olhou para mim: — Não, não vi. Jem poupou-me de mais perguntas. Disse que o Atticus ainda estava sensível em relação a nós e aos Radleys e que não valia a pena ficar fazendo-lhe quaisquer perguntas. O Jem tinha a noção de que o Atticus sabia que as nossas atividades naquela noite do Verão passado não tinham estado estritamente confinadas ao strip poker. Mas, como não tinha uma base concreta para aquela ideia, dizia que era apenas um palpite. Na manhã seguinte, ao acordar, olhei para a janela e quase morri de susto. Os meus gritos fizeram o Atticus sair do banheiro ainda com a barba meia por fazer. — Atticus, é o fim do mundo! Por favor, faz alguma coisa... Arrastei-o até à janela e apontei. — Não é nada — disse ele. — Está apenas nevando. O Jem perguntou ao Atticus se aquilo dava pra conservar. Ele também nunca tinha visto neve, mas sabia o que era. O Atticus disse que não sabia muito mais sobre neve do que o Jem. — Penso, contudo, que se é assim tão líquida, acabará por se transformar em chuva. O telefone tocou e o Atticus deixou o café da manhã no meio para o ir atender. — Era a Eula May — disse ele, quando voltou. — E passo a citar, «Como já não nevava em Maycomb County desde 1885, hoje não haverá escola». Eula May era a telefonista chefe de Maycomb. Estava encarregada de fazer os anúncios públicos, convites para casamento, ativar a sirene de incêndio e fornecer instruções para primeiros socorros quando o Dr. Reynolds estava ausente. Quando finalmente o Atticus nos chamou à atenção e nos obrigou a olhar para o prato em vez de olhar para a janela, o Jem perguntou: — Como é que se faz um boneco de neve? — Não faço a mínima ideia — respondeu o Atticus. — Eu não quero desapontá-los, mas duvido que haja neve suficiente para fazer um boneco de neve. A Calpurnia entrou e disse que achava que a neve ia continuar caindo. Quando corremos para o quintal dos fundos, vimos que estava coberto por uma fina camada de neve quase líquida. — Não devíamos andar em cima dela — disse o Jem. — Repare, todos os passos que damos estão estragando-a. Olhei para trás para as minhas pegadas ainda frescas no chão. O Jem disse que se esperássemos que nevasse mais, com um pouquinho de esforço podíamos fazer um boneco de neve. Pus a língua de fora e apanhei um floco de neve. Queimava. — Jem, ’tá quente! — Não, não está. Está é tão fria que até queima. Scout, não a coma agora, ’ocê só vai desperdiçar. Deixe-a cair no chão. — Mas eu quero andar em cima dela! — Tenho uma ideia. Podíamos ir a pé até casa da Srta. Maudie. O Jem saltitou até o pátio da frente. Eu segui as suas pegadas. Quando estávamos na calçada em frente da casa da Srta. Maudie fomos interpelados pelo Sr. Avery. Tinha a face rosada e uma enorme barriga por baixo do cinto. — ’Tão vendo o que fizeram? — confrontou-nos. — Já num nevava em Maycomb desd’ Appomattox. São crianças más como vocês que fazem com c’as estações mudem. Imaginava se o Sr. Avery sabia com quanta esperança tínhamos aguardado, no Verão passado, que ele repetisse a sua performance e pensei que, se a nossa recompensa era aquilo, se não estávamos fazendo um pecado. Não era preciso pensar bastante para saber onde é que o Sr. Avery reunia as suas estatísticas meteorológicas: elas vinham diretamente da Pedra de Roseta. — Jem Finch, o Jem Finch! — A Srta. Maudie ’tá te chamando, Jem. — Fiquem no meio do pátio. Por baixo da varanda há algumas flores enterradas debaixo da neve. Não pisem nelas! — Sim, senhora! — respondeu o Jem. — É lindo, não é Srta. Maudie? — Lindo, pero no mucho! Se esta noite continuar nevando assim as minhas azaleias vão morrer! O velho chapéu de palha da Srta. Maudie brilhava com os cristais de neve. Ela estava dobrada sobre alguns pequenos arbustos, embrulhando-os em sacos de serapilheira. O Jem perguntou-lhe por que é que estava fazendo aquilo. — Para os manter quentes — respondeu. — Como é possível manter as flores quentes? Elas não andam. — Não posso responder a essa pergunta, Jem Finch. Tudo o que sei é que se esta noite nevar estas plantas vão congelar, por isso estou cobrindo-as. Entendeu? — Sim, senhora. Srta. Maudie? — Sim, caro senhor? — Pode nos emprestar alguma da sua neve, a mim e à Scout? — Façam favor, levem-na toda! Debaixo da casa tem um cesto velho para os pêssegos, levem-na aí. Depois, a Srta. Maudie franziu a sobrancelha, desconfiada: — Jem Finch, o que é que está pensando fazer com a minha neve? — Vai ver — respondeu o Jem e carregamos tanta neve quanto podíamos do pátio da Srta. Maudie para o nosso. Uma operação líquida... — O que é que vamos fazer, Jem? — perguntei eu. — Verá — respondeu. — Agora pega o cesto e traz toda a neve que puder do quintal dos fundos aqui para a frente. Atenção, siga sempre as tuas pegadas — ordenou-me. — Vamos fazer um bebê de neve, Jem? — Não, vamos fazer um boneco de neve de verdade. E agora mãos à obra. O Jem correu para o quintal dos fundos, pegou na enxada do jardim e começou a escavar rapidamente por trás da pilha de lenha, apartando as minhocas que encontrava. Entrou em casa, voltou com o cesto da roupa suja, encheu-o com terra e foi para o pátio. Quando tínhamos cinco cestos cheios de terra e dois de neve, o Jem disse que estávamos prontos para começar. — Não acha qu’isto é um pouquinho imundo? — perguntei. — Agora parece uma sujeira, mas depois não — respondeu. O Jem pegou numa mão cheia de terra, juntou-a até fazer um monte e juntou outra e mais outra até construir um tronco. — Jem, nunca ouvi falar num boneco de neve negro — disse eu. — Não vai ficar negro por muito tempo — retorquiu. Pegou em alguns galhos do pessegueiro do quintal dos fundos, trançou-os e dobrou-os até se tornarem ossos para serem cobertos de terra. — Pareca a Srta. Stephanie Crawford com as mãos nas cinturas. — comentei. — Gorduchinha no meio e com uns braços pequeninhos. — Eu vou fazê-los maiores. O Jem borrifou água para o boneco de lama e acrescentou mais terra. Por um momento pareceu pensativo, depois moldou uma grande barriga abaixo da linha da cintura. Olhou de relance para mim e os seus olhos cintilavam. — O Sr. Avery é mesmo parecido com um boneco de neve, não é? Pegou em alguma neve e começou a revestir o boneco. Só me deixou cobrir as costas, guardando as partes visíveis para ele. Aos poucos o Sr. Avery foi ficando branco. Usando tocos de madeira para os olhos, nariz, boca e alguns botões, o Jem conseguiu fazer com que o Sr. Avery ficasse com um ar zangado. Uma tora de lenha de fogão completou a figura. O Jem deu um passo atrás e observou a sua criação. — ’Tá muito bom, Jem — elogiei. — Só lhe falta falar. — ’Tá legal, não está? — disse ele timidamente. Mal podíamos esperar que o Atticus chegasse em casa para o jantar, por isso telefonamos pra ele e dissemos que tínhamos uma grande surpresa para ele. Pareceu surpreendido quando viu que praticamente todo o nosso quintal dos fundos tinha mudado para o pátio da frente, mas disse que tínhamos feito um trabalho digno de nota. — Confesso que não sabia como é que o ia fazer, filho — virou-se para o Jem — mas a partir de agora nunca mais me preocupo com o teu futuro, porque tem sempre alguma coisa em mente. O Jem corou até às orelhas com os elogios do Atticus, mas levantou logo a cabeça quando viu que o Atticus recuava. O Atticus pôs-se a olhar de soslaio para o boneco durante algum tempo. Sorriu e depois soltou uma gargalhada. — Filho, não sei te dizer o que vai ser quando for grande... engenheiro, advogado ou fotógrafo. Acabou de perpetrar aqui um pequeno ato de difamação. Temos de disfarçar este companheiro. O Atticus sugeriu que emagrecêssemos um pouco a parte da frente do boneco, trocássemos o pau de lenha por uma vassoura e lhe colocássemos um avental. O Jem explicou que se fizéssemos, o boneco de neve acabaria por ficar lamacento e assim deixaria de ser um boneco de neve. — Não me interessa o que vai fazer, desde que faça alguma coisa — disse o Atticus. — Não pode andar por aí fazendo caricaturas dos vizinhos. — Não é uma caricatura — defendeu-se o Jem. — É apenas parecido com ele. — O Sr. Avery pode não pensar da mesma forma. — Já sei! — disse o Jem. Atravessou a rua correndo, desapareceu no quintal dos fundos da Srta. Maudie e voltou triunfante. Enfiou o chapéu de palha dela na cabeça do boneco e meteu-lhe a tesoura de poda debaixo do braço. O Atticus disse que assim estava bem. A Srta. Maudie abriu a porta da frente e veio à varanda. Olhou para nós do outro lado da rua. Subitamente, esboçou um sorriso. — Jem Finch — chamou. — Seu diabinho, devolve-me já o meu chapéu! O Jem olhou para o Atticus, que abanou a cabeça. — Ela está brincando — sossegou. — Ela está verdadeiramente impressionada com a tua... obra de arte. O Atticus caminhou até na calçada da Srta. Maudie, local onde teve início uma conversa pontuada por muitos gestos. A única frase que consegui perceber foi «...ergueram um verdadeiro hermafrodita naquele pátio! Jamais será capaz de educá-los, Atticus!» Durante a tarde parou de nevar, a temperatura baixou e, ao anoitecer, as piores previsões do Sr. Avery concretizaram-se: a Calpurnia manteve todas as lareiras da casa acesas, mas nós ainda sentíamos um imenso frio. Naquela noite, quando o Atticus regressou pra casa, disse que o frio tinha vindo para ficar e perguntou se a Calpurnia queria ficar pra dormir em nossa casa. A Calpurnia olhou para o pé-direito alto e para as enormes janelas e disse que se sentiria mais quente e aconchegada na casa dela. Então o Atticus foi levá-la pra casa de carro. Antes de adormecer o Atticus colocou mais carvão na braseira do meu quarto. Disse que o termômetro marcava nove graus negativos, que era a noite mais fria de que tinha memória e que, lá fora, o boneco de neve estava congelado. Alguns minutos mais tarde, pareceu-me, fui acordada por alguém me sacudindo. O sobretudo do Atticus estava estendido sobre mim. — Já é de manhã? — Levante-se amor. O Atticus estava segurando o meu roupão de banho e um casaco. — Veste primeiro o roupão — indicou. O Jem estava ao lado do Atticus, despenteado e caindo de sono. Uma mão segurava o sobretudo junto ao pescoço e a outra estava metida no bolso. Parecia estranhamente obeso. — Depressa, querida — disse o Atticus. — Aqui estão seus sapatos e as meias. Meia estúpida, calcei-os. — Já é de manhã? — Não, mas já passa da uma da manhã... Vai. Por fim percebi de que havia algo de errado. — O que está acontecendo? Naquela altura era desnecessário alguém me explicar. Tal como os pássaros sabem para onde ir quando chove, eu sabia quando acontecia algo de mal na nossa rua. Assustada, ouvia lá fora um inquietante roçar de roupas e o barulho abafado de gente em correria nervosa. — Onde é? — Na casa da Srta. Maudie, querida — respondeu o Atticus com brandura. Da nossa porta da frente víamos as labaredas irrompendo pelas janelas da sala de jantar da Srta. Maudie. E, como que a confirmar a nossa visão, a sirene dos bombeiros da cidade fez-se ouvir estridentemente até ao topo da escala e depois manteve-se nesse tom, em altos berros. — Vai passar, não vai? — gemeu o Jem. — Espero que sim — disse o Atticus. — Agora ouçam, os dois. Desçam a rua e fiquem em frente à Casa dos Radley. E mantenham-se fora do caminho, estão ouvindo? Vejam para que lado o vento está soprando, está bem? — Ahm — disse o Jem. — Atticus, acha que devemos começar a retirar a mobília? — Ainda não, filho. Faz o que te digo. Vão logo. Toma conta da Scout, ouviu? Não tire os olhos dela. Com um empurrão, o Atticus nos direcionou para o portão da frente da Casa dos Radley. Ficamos vendo a rua repleta de homens e carros enquanto o fogo devorava silenciosamente a casa da Srta. Maudie. — Mas por que é que eles não se apressam, por que é que eles não vem rápido... — murmurava o Jem. Depois vimos porquê. O velho caminhão dos bombeiros, morto de frio, estava sendo empurrado desde a cidade por uma multidão de homens. Quando os homens ligaram a sua mangueira a uma hidrante, a mangueira arrebentou e a água espalhou-se, inundando o pavimento. — Ai meu Deus, Jem. O Jem colocou o braço à minha volta. — Calma, Scout — disse ele. — Ainda não é hora para preocupações. Eu te digo quando for. Os homens de Maycomb, uns mais vestidos, outros menos, mudaram a mobília da Srta. Maudie de dentro de casa para o pátio do outro lado da rua. Vi o Atticus carregando a pesada cadeira de balanço da Srta. Maudie e pensei como era sensato da parte dele salvar o objeto que lhe era mais valioso. Às vezes ouvíamos gritos. Depois, apareceu a cara do Sr. Avery numa das janelas do primeiro andar. Atirou um colchão para a rua pela janela e começou a atirar a mobília até os homens gritarem: — Sai daí, Dick! As escadas estão quase destruídas! Saia daí, Sr. Avery! O Sr. Avery se preparava para sair pela janela. — Scout, ele está encurralado... — sussurrou o Jem. — Ai meu Deus... O Sr. Avery estava entalado na janela. Enterrei a minha cabeça debaixo do braço do Jem e só voltei a olhar quando o Jem gritou: — Ele se soltou, Scout! Ele ’tá bem! Olhei para cima e vi o Sr. Avery atravessando a varanda do primeiro andar. Passou as pernas por cima do corrimão e preparava-se para descer um pilar quando escorregou. Caiu com um grito e acertou em cheio na cerca viva da Srta. Maudie. De súbito, reparei que os homens se afastavam da casa da Srta. Maudie e que estavam agora descendo rua abaixo na nossa direção. Já não carregavam mobília. O fogo consumia o segundo andar e começava agora a abrir caminho para o telhado: os caixilhos das janelas eram molduras pretas contrastando com um centro laranja vivo. — Jem, parece uma abóbora... — Scout, olha! Rolos de fumaça saíam da nossa casa e da da Srta. Rachel como o nevoeiro sai das margens de um rio, e os homens tentavam tudo para aproximar as mangueiras. Atrás de nós, o carro dos bombeiros de Abottsville apitou a sirene ao desfazer a curva, parando à frente da nossa casa. — Aquele livro... — disse eu. — O quê? — perguntou o Jem. — Aquele livro do Tom Swift, não é meu, é do Dill... — Não se preocupe, Scout, ainda não está na hora de se preocupar — disse o Jem. E depois apontou. — Olhe pr’á lá. O Atticus estava parado, mãos nos bolsos do sobretudo, juntamente com um grupo de vizinhos. Parecia que estava assistindo a um jogo de futebol. A Srta. Maudie estava ao lado dele. — ’Tá vendo, ele ainda não está preocupado — disse o Jem. — Mas por qu’e qu’ele não ’stá no telhado duma das casas? — É muito velho, pode quebrar o pescoço. — ‘Ocê acha que o devemos obrigar a tirar as nossas coisas de lá de dentro? — Não vamos incomodar, ele decerto saberá quando for a hora certa — reafirmou o Jem. O caminhão dos bombeiros de Abbottsville começou a bombear água para a nossa casa; no telhado, um homem ia apontando para os locais onde era mais necessário. Vi o nosso Morfrodita Perfeito ficando preto e desmoronando; o chapéu de palha da Srta. Maudie permanecia por cima do monte. Só não conseguia ver a sua tesoura de poda. Com o calor que estava entre a nossa casa, a da Srta. Rachel e a da Srta. Maudie, os homens há muito que tinham despido os casacos e os roupões. Trabalhavam de pijama ou com as camisas de noite metidas dentro das calças, mas aos poucos fui percebendo que estava literalmente me congelando naquele local. O Jem tentava me manter quente, mas o braço dele não chegava. Libertei-me dele e pus as mãos nos ombros. Se dançasse um pouquinho, era capaz de sentir os pés. Surgiu outra viatura dos bombeiros e parou em frente da casa da Srta. Stephanie Crawford. Como não havia hidrante para outra mangueira, os homens tentaram molhar a casa dela com extintores. O telhado de zinco da Srta. Maudie ia conseguindo controlar as chamas. Rugindo, a casa desmoronou; o fogo espalhou-se por todo o lado, seguido por um tumulto de homens armados de cobertores que, do topo das casas adjacentes, tentavam apagar fagulhas e pedaços de madeira ardendo. O amanhecer despontou antes mesmo que os homens começassem a ir embora, primeiro um a um, depois em grupo. Empurraram o caminhão dos bombeiros de Maycomb de volta até à cidade, o caminhão de Abbottsville partiu e só o terceiro ficou. No dia seguinte, descobrimos que tinha vindo de Clark’s Ferry, a quase cem quilômetros de distância. Eu e o Jem atravessamos a rua. A Srta. Maudie estava parada olhando para o buraco negro fumegante no seu terreno e o Atticus nos fez sinal com a cabeça alertando-nos de que ela não queria falar. Levou-nos para casa, abraçado a nós, como que nos aconchegando face àquela rua gelada. Disse que a Srta. Maudie iria ficar na casa da Srta. Stephanie durante algum tempo. — Alguém quer chocolate quente? — perguntou. Estremeci quando o Atticus acendeu o fogão da cozinha. Enquanto bebíamos o nosso cacau, reparei que o Atticus estava olhando para mim, primeiro com curiosidade, depois com severidade. — Pensei que eu tinha dito para ficarem quietos — começou. — Porquê, mas nós ficamos. Sério que ficamos... — Então de quem é esse cobertor? — Cobertor? — Sim, senhora, cobertor. Não é nosso. Olhei para baixo e reparei que estava embrulhada num cobertor de lã castanho que me cobria os ombros, à moda índia, tipo squaw. — Atticus, não sei, mas pai... eu... Olhei para o Jem à espera de uma resposta, mas o Jem ainda estava mais atônito do que eu. Ele disse que não sabia como tinha ido parar ali, pois tínhamos feito exatamente o que o Atticus tinha dito, mantendo-nos em frente do portão da Casa dos Radley longe de todos, sem nos mexermos um milímetro — o Jem calou-se. — O Sr. Nathan estava no incêndio — balbuciou. — Eu vi, eu vi, estava puxando aquele colchão — eu juro, Atticus... — Tudo bem, filho — o Atticus esboçou um sorriso. — De qualquer forma, parece que Maycomb em peso esteve aqui fora esta noite. Jem, acho que há algum papel de embrulho na despensa. Vai buscá-lo para começarmos a... — Por favor Atticus, não! O Jem parecia que endoidecera de vez. Começou a contar a torto e a direito todos os nossos segredos com total indiferença à minha segurança, se não também à dele, não deixando escapar nada, o buraco da árvore, as calças, tudo, tudo. — ...O Sr. Nathan pôs cimento naquela árvore, Atticus, e fê-lo p’ra nos impedir de encontrar as coisas. — Eu acho qu’ele é doido, tal como dizem, mas Atticus, eu juro por Deus qu’ele nunca nos fez mal, nunca nos fez mal, e naquela noite ele podia ter cortado a minha garganta de orelha a orelha, mas em vez disso tentou remendar as minhas calças... ele nunca nos fez mal, Atticus... O Atticus interrompeu-o, dizendo «Pronto, calma, filho», tão gentilmente que eu fiquei bastante animada. Era óbvio que não tinha percebido uma palavra do que o Jem tinha dito, por isso apenas disse: — Tem razão. É melhor guardarmos isto e o cobertor para nós. Talvez um dia a Scout possa lhe agradecer por tê-la coberto. — Agradecer a quem? — perguntei. — Ao Boo Radley. Estava tão distraída olhando para o incêndio que não reparei quando ele colocou o cobertor nas minhas costas. Senti o meu estômago embrulhando e quase vomitei quando o Jem agarrou no cobertor e se aproximou de mim. — Ele escapou da casa... deu uma volta... e voltou a correu para dentro, assim, num piscar de olhos! O Atticus disse secamente: — Espero que isto não sirva de inspiração para futuras proezas, Jeremy. O Jem começou a zombar: — Não vou lhe fazer nada — só que eu bem via aquela centelha, sinal de novas aventuras, no seu olhar. — Imagina só, Scout — disse ele — se tivesse se virado, tinha lhe visto. A Calpurnia acordou-nos ao meio-dia. O Atticus disse que naquele dia não precisávamos de ir para a escola, já que não se aprendia nada sem uma boa noite de sono. A Calpurnia disse para tentarmos limpar o pátio da frente. O chapéu de palha da Srta. Maudie estava suspenso sobre uma fina camada de gelo, como uma mosca no mel e tivemos de escavar no meio da sujeira para encontrar a tesoura de poda. Fomos encontrá-la no quintal dos fundos olhando para as azaleias geladas e carbonizadas. — Viemos devolver-lhe as suas coisas, Srta. Maudie — disse o Jem. — Lamentamos muito. A Srta. Maudie olhou em volta e a sombra do seu velho sorriso voltou a encher o seu rosto. — Sempre quis ter uma casa mais pequena, Jem Finch. Assim teria mais terreno. Viu, agora tenho mais espaço para as minhas azaleias! — Não ’stá sofrendo, a Srta. Maudie? — perguntei eu, surpreendida. O Atticus tinha me dito que aquela casa era praticamente tudo o que ela tinha. — Sofrendo, querida? Porquê? Detestava aquele estábulo. Pensei em tacar-lhe fogo umas cem vezes, mas acho que assim ia parar na cadeia. — Mas... — Não se preocupe comigo, Jean Louise Finch. Há formas de se fazer as coisas que ainda não conhece. Agora vou construir uma casa mais pequena e arranjar um par de hóspedes... e, se Deus quiser, terei o melhor quintal de todo o Alabama. E quando eu começar aqueles Bellingraths vão ficar roídos de inveja. Eu e o Jem nos olhamos discretamente: — Como é que o fogo se ateou, a Srta. Maudie? — perguntou ele. — Não sei, Jem. Provavelmente devido à fuligem na chaminé da cozinha. Na noite passada deixei o fogão aceso para aquecer umas plantas que tinha nos vasos... Ouvi dizer que teve uma companhia inesperada a noite passada, Jean Louise. — Como é que sabe? — Foi o Atticus que me contou, esta manhã, a caminho da cidade. Olha, vou ser sincera, gostaria de ter estado contigo. E teria tido a esperteza suficiente para olhar para trás. A Srta. Maudie deixou-me intrigada. Tinha perdido a maior parte dos seus bens, o seu amado quintal estava arruinado e, mesmo assim, mantinha aquele interesse vivo e cordial pelos nossos assuntos. Eu acho que ela se percebeu da minha perplexidade. E disse: — A única coisa que me preocupou na noite passada foi o perigo e o sobressalto causados. Podia ter destruído o bairro todo. O Sr. Avery ainda vai ficar de cama uma semana —, está todo chamuscado, coitado. É muito velho para fazer coisas como aquela e eu bem que o avisei. Quando melhorar das mãos e quando a Srta. Stephanie Crawford não estiver olhando, vou lhe fazer um bolo recheado com frutas cristalizadas. Aquela Stephanie já anda atrás da minha receita há trinta anos e se ela pensa que eu agora vou lhe dar só por ficar na casa dela, está muito enganada. Pensei que, mesmo que a Srta. Maudie cedesse e lhe desse, ela nunca o conseguiria fazer. Certo dia, a Srta. Maudie tinha me deixado assistir: entre outras coisas, a receita exigia uma grande xícara de açúcar. O dia estava calmo e tranquilo. O ar estava tão frio e cristalino que ouvíamos o barulho do carrilhão do relógio do tribunal, a chocalhar e a ranger, antes de dar as horas. O nariz da Srta. Maudie tinha uma cor nunca antes vista por mim e me perguntava porquê. — Estou aqui fora desde as seis da manhã — respondeu ela. — A esta hora já devia estar congelada. — Ergueu as mãos. Uma rede de minúsculas linhas cruzava-lhe as palmas das mãos, castanhas e sujas de terra e de sangue seco. — Estragou-as todas — disse o Jem. — Por que não arranja um criado preto? Não havia qualquer nota de sacrifício na sua voz quando, mais tarde, acrescentou: — Ou então, eu e a Scout, nós podemos ajudá-la. A Srta. Maudie respondeu: — Obrigado, amigo, mas o teu trabalho é lá. — E apontou para o nosso quintal. — ’Tá se referindo ao morfrodita? — perguntei eu. — Sabe o que mais, a gente despacha aquilo num instante! A Srta. Maudie ficou olhando para mim, mexendo os lábios silenciosamente. De repente, levou as mãos à cabeça e começou a rir. Quando a deixamos, ainda estava rindo. O Jem disse que não sabia bem o que se passava com ela — mas que aquela era mesmo a Srta. Maudie. IX — RETIRE JÁ O QUE disse, rapaz! Esta ordem, dada por mim ao Cecil Jacobs, marcava o início de tempos um tanto ou quanto conturbados, tanto para mim, como para o Jem. Cerrei os punhos e estava pronta para atacar. O Atticus já tinha prometido que me castigaria se soubesse que eu tinha andado brigando; já era bem crescidinha para coisas tão infantis, e quanto mais cedo aprendesse a me controlar, melhor seria para todos. Mas depressa me esqueci de tudo isso. A culpa foi toda do Cecil Jacobs. Tinha andado dizendo no recreio da escola que o paizinho da Scout Finch defendia os pretos. Eu neguei, mas depois até contei ao Jem. — O qu’e qu’ele q’ria dizer com aquilo? — perguntei. — Nada — disse o Jem. — Pergunta ao Atticus, ele te explica. — Defende pretos, Atticus? — perguntei-lhe eu nessa mesma tarde. — Claro que sim. Não diga preto, Scout. É feio. — Mas’e o qu’todo mundo diz na escola. — Então, a partir de agora passa a ser todo mundo, menos uma pessoa... — Mas então, se não quer que cresça falando desta maneira, por que é que me manda p’rá escola? O meu pai olhou para mim de forma indulgente. Via que estava obviamente se divertindo. Apesar do nosso compromisso, a minha campanha para evitar a escola tinha continuado aqui e ali, desde a minha primeira dose de aula: o início de Setembro último tinha trazido consigo depressões, tonturas e leves queixas gástricas. Cheguei ao ponto de pagar uma moeda só para ter o privilégio de esfregar a minha cabeça contra a do filho da cozinheira, a Srta. Rachel, que sofria de tremendas impigens. Não adiantou. Só que agora havia outra coisa que me incomodava. — Todos os advogados defendem pre... negros, Atticus? — Claro que sim, Scout. — Então, por que é que o Cecil diz que ’ocê defende preto? É que ele deu a entender que faz alguma coisa fora do comum. O Atticus suspirou: — Neste momento estou defendendo um negro... chama-se Tom Robinson. Vive naquela pequena casa que fica além da lixeira da cidade. É membro da igreja da Calpurnia e a Cal conhece bem a família dele. Diz que são gente honesta. Scout, ainda não tem idade para compreender determinadas coisas, mas correm alguns rumores na cidade sobre este caso e dizem que eu não devia fazer muito para defender este homem. É um caso peculiar... só será julgado na audiência de Verão. O juiz John Taylor foi suficientemente simpático para nos conceder um adiamento... — Se não o devia estar defendendo, então por que é que o faz? — Por muitas e variadas razões — respondeu o Atticus. — A ideia é que, se não o defendesse, não poderia andar de cabeça erguida na cidade, não poderia representar este condado na comissão legislativa, nem sequer poderia dar ordens a ti e ao Jem. — Quer dizer que se não defendesse aquele homem, eu e o Jem não tínhamos de nos ralar mais? — Correto. — Porquê? — Porque nunca mais eu podia dizer para me obedecerem. Scout, devido à natureza do seu trabalho, ao longo da sua vida um advogado tem sempre um caso que o afeta a nível pessoal. Penso que este é o meu. Com certeza vai ouvir algumas coisas desagradáveis na escola, mas me faça um grande favor: mantenha a cabeça levantada e os punhos em baixo. Não ligue pro que te digam e, sobretudo, não deixe que eles te irritem. Tenta, para variar, lutar com a cabeça... Verá que é uma boa solução, embora custe a aprender. — Atticus, vai ganhar o caso? — Não, querida. — Então, mas porque... — Porque fomos derrotados há cem anos, não significa que agora não possamos tentar ganhar — disse o Atticus. — Parece mesmo o primo Ike Finch — disse eu. O primo Ike Finch era o único sobrevivente de Maycomb County da guerra da Secessão. Usava uma barba tipo general Hood na qual depositava extremo orgulho. Pelo menos uma vez por ano, eu e o Jem íamos visitá-lo e eu tinha de lhe dar um beijo. Era horrível. Depois, eu e o Jem ficávamos ouvindo respeitosamente ele e o Atticus revivendo a guerra. — Te digo uma coisa, Atticus — dizia o primo Ike — o que nos derrotou foi o Compromisso do Missouri, mas se pudesse voltar atrás repetia passo a passo o que fiz e desta vez haveríamos de os vencer... agora em 1864 quando apareceu o Stonewall Jackson... desculpe crianças. Nessa altura o velho Blue Light estava no céu, Deus dê descanso à sua alma... — Vem aqui, Scout — disse o Atticus. Subi para o colo dele e aninhei-me, encaixando a cabeça debaixo do queixo dele. Ele pôs os braços à minha volta e começou a embalar-me suavemente. — Só que desta vez é diferente — disse ele. — Desta vez não estamos lutando contra os ianques, estamos é lutando contra os nossos amigos. Mas lembre-se de uma coisa, por mais complicadas que as coisas se tornem, eles continuam sendo nossos amigos e esta continua a ser a nossa casa. Com este pensamento em mente, no dia seguinte decidi enfrentar o Cecil Jacobs no pátio da escola: — Então, vai retirar o que disse, rapaz? — Ora me obrigue! — gritou ele. — Os meus pais disseram qu’o teu era uma vergonha e c’aquele preto devia ser era enforcado no depósito da água! Preguei-lhe um soco, mas depois me lembrei do que o Atticus tinha dito, baixei os punhos e lhe virei as costas, escutando-o aos gritos: — A Scout é uma grande co... varde! — Foi a primeira vez que desisti de uma luta. De certo modo, se tivesse lutado com o Cecil estaria desiludindo o Atticus. O Atticus raramente pedia pra mim ou ao Jem para fazermos alguma coisa por ele. Acho que por ele, aguentava ser chamada de covarde. Sentia-me extremamente nobre por me ter lembrado e assim permaneci durante três semanas. Depois veio o Natal e foi então que a bomba explodiu. Eu o Jem víamos o Natal com sentimentos antagônicos. O seu lado bom era a árvore e o tio Jack Finch. Todas as vésperas de Natal, lá íamos nós buscar o tio Jack na Maycomb Junction e ele passava uma semana conosco. O reverso da medalha era caracterizado pelos traços intransigentes da tia Alexandra e do Francis. Penso que também devo incluir o tio Jimmy, o marido da tia Alexandra, mas como ele nunca na vida me tinha dirigido a palavra exceto uma vez para dizer, «Sai de cima da cerca», não via razão para o incluir. Nem tão pouco à tia Alexandra. Há muito tempo atrás, num acesso de pura amizade, a minha querida titi e o tio Jimmy produziram um filho, deram o seu nome de Henry, que saiu de casa, tão rápido quanto lhe foi humanamente possível, casou e, por sua vez, acabou por gerar o Francis. Todos os Natais, o Henry e a sua esposa deizxavam o Francis nos avós para depois partirem em busca dos seus próprios prazeres. Não havia nostalgia suficiente que levasse o Atticus a nos deixar passar o dia de Natal em casa. Desde que me lembro, passávamos todos os Natais na Fazenda Finch. O fato de a tia ser uma boa cozinheira compensava o fato de ser obrigada a passar um feriado religioso com o Francis Hancock. Era um ano mais velho do que eu e, regra geral, eu fazia tudo para o evitar: gostava de tudo o que eu desaprovava e detestava as minhas engenhosas brincadeiras. A tia Alexandra era irmã do Atticus, mas quando o Jem me contou histórias sobre trocas e confusões entre irmãos, decidi logo que ela devia ter sido trocada no nascimento e que talvez os meus avós tivessem recebido uma Crawford em vez de uma Finch. Se alguma vez tivesse acolhido aquelas noções místicas sobre montanhas que tanto parecem obcecar os advogados e os juízes, então a tia Alexandra seria comparável ao Monte Everest: ao longo da minha infância, ela foi sempre fria e distante e, no entanto, imperturbavelmente presente. Quando o tio Jack saltou do comboio na véspera de Natal, tivemos de esperar que o bagageiro lhe entregasse dois grandes embrulhos. Eu e o Jem achávamos sempre uma piada quando o tio Jack dava um beijo na cara do Atticus; eram os únicos dois homens que alguma vez vi se beijando. O tio Jack dava um aperto de mão do Jem e me pegava no colo, lançando-me bem alto no ar; a bem dizer, não o suficientemente alto: é que o tio Jack era um palmo mais baixo do que o Atticus; o caçula da família, era mais novo do que a tia Alexandra. Ele e a nossa tia eram parecidos, mas o tio Jack era bem mais favorecido em termos de cara: raramente nos notávamos o seu queixo e nariz afiados. Era dos poucos homens de ciência que não me amedrontavam, muito provavelmente porque nunca se comportava como um médico. Quando desempenhava um pequeno serviço a mim ou ao Jem, como retirar uma farpa de um pé, dizia-nos exatamente o que estava fazendo, dava-nos sempre uma estimativa de quanto ia doer e que uso iria dar a alguma pinça que utilizasse. Certo Natal eu andava fugindo pelos cantos, às voltas com uma farpa espetada no pé, não deixando que ninguém chegasse perto de mim. Quando o tio Jack me pegou, pôs-me logo a rir, me contando uma história de um padre que detestava tanto ir à igreja que ficava parado todos os dias no portão da frente de sua casa, enfiado na sua batina, fumando narguilé e pregando sermões de cinco minutos aos transeuntes que desejassem algum conforto espiritual. Interrompi-o só para lhe pedir que me avisasse quando ia arrancar, mas nessa altura ele já segurava uma farpa ensanguentada num par de pinças e disse que a tinha extraído enquanto eu ria e que, no fundo, aquilo era o que vulgarmente se chamava «relatividade». — O que é que está dentro daquelas caixas? — perguntei-lhe, apontando para uns pacotes finos e compridos que o bagageiro lhe tinha dado. — Não tem nada com isso — respondeu. O Jem disse: — Como vai a Rose Aylmer? A Rose Aylmer era a gata do tio Jack. Era uma bela mulher de cor amarela e o tio Jack disse que era uma das poucas mulheres que conseguia suportar permanentemente. Meteu a mão no bolso e tirou algumas fotografias. Ficamos admirando-as. — Está mais gorda — disse eu. — Também acho que sim. Come todos os restos, orelhas e dedos que lhe trago do hospital. — O raio dessa história é mesmo de partir o coco! — disse eu. — O quê? O Atticus interrompeu: — Não lhe preste atenção, Jack. Só está te pondo à prova. A Cal diz que ela anda praguejando há uma semana. O tio Jack levantou as sobrancelhas e não disse nada. A minha teoria obscura era que, além da atração inata por aquelas palavras, se o Atticus descobrisse que eu as tinha aprendido na escola, talvez me proibisse de ir para lá. Mas naquela noite, no jantar, quando lhe pedi para ele me passar por favor o raio do fiambre, o tio Jack apontou para mim. — Depois falamos, minha menina — ameaçou. Quando acabamos de jantar, o tio Jack foi para a sala de estar e sentou-se. Bateu nas coxas para eu me sentar no colo dele. Gostava do seu cheiro: era como uma garrafa de álcool, só que misturada com alguma coisa agradavelmente doce. Puxou as minhas mexas para trás e olhou para mim. — Está se parecendo mais com o Atticus do que com a tua mãe — disse ele. — E também anda meio que desbocada. — Acho que já não sou nenhum neném... — Agora gosta de falar palavras como «raio» e «diabo», não é? Reconheci que sim. — Pois eu não gosto mesmo — disse o tio Jack — a não ser que haja extrema provocação ligada a elas. Olha, vou ficar aqui uma semana e não quero ouvir esse gênero de palavras enquanto estiver aqui, está bem? Ainda vai se meter em apuros se continuar falando assim, Scout. Você quer crescer e ser uma senhora, não quer? Eu respondi que não por isso. — Claro que quer. Anda, agora vamos fazer a árvore. Ficamos decorando a árvore até à hora de ir dormir e nessa noite sonhei com dois enormes presentes destinados pra mim e pro Jem. Na manhã seguinte, eu o Jem, fomos direitinhos à procura deles: eram do Atticus, que tinha escrito ao tio Jack para as trazer para nós e correspondiam exatamente àquilo que nós tínhamos pedido. — Não a aponte pra dentro de casa — advertiu o Atticus, quando o Jem apontou a espingarda para um quadro na parede. — Tem de os ensinar disparando — disse o tio Jack. — Essa é a tua função — disse o Atticus. — Limitei-me a adiar o inevitável. O Atticus teve de fazer uso da sua voz de tribunal para nos obrigar a nos afastar da árvore. Não permitiu que levássemos as nossas espingardas de pressão para a Fazenda (confesso que já estava imaginando em alvejar o Francis) e disse que se déssemos um passo em falso as retiraria de vez das nossas mãos. A Fazenda Finch consistia numa ribanceira de trezentos e sessenta e seis degraus que desciam a pique até culminarem num cais. A jusante do rio, depois da ribanceira, havia vestígios de uma velha plantação de algodão, onde os negros Finch tinham carregado fardos e outros produtos agrícolas, descarregado blocos de gelo, farinha e açúcar, equipamento de lavoura e vestuário feminino. Um pequeno caminho de bois estendia-se ao longo da margem do rio e desaparecia na escuridão das árvores. No fim dessa estrada havia uma casa branca de dois andares com varandas em toda a volta, em cima e em baixo. O nosso antepassado, Simon Finch, tinha-a construído na sua velhice para agradar à sua irritante mulher; porém, qualquer semelhança com as outras casas da época terminava apenas nas varandas. A decoração interior da mansão Finch era um reflexo da sua absoluta ingenuidade e da total confiança que Simon depositava na sua prole. No andar de cima havia seis quartos, quatro para as oito meninas, um para o Welcome Finch, o seu único filho, e ainda outro para as visitas. Tudo bastante simples; só que o acesso aos quartos das filhas apenas podia ser feito por um lanço de escadas, enquanto o acesso aos quartos do Welcome e das visitas era feito por outra escadaria. Dado que a Escadaria das Meninas terminava no quarto dos pais, no andar térreo, Simon sabia sempre as horas das entradas e saídas noturnas das filhas. Havia uma cozinha separada do resto da casa, cujo acesso era feito através de um passadiço de madeira; no quintal dos fundos existia um sino ferrugento pendurado num poste que servia para chamar os trabalhadores dos campos ou como sinal de alerta; no telhado havia um varandim tipo «passeio das viúvas», só que nenhuma viúva passeava por ali — era daí que Simon supervisionava o capataz, observava os barcos no rio e bisbilhotava as vidas dos outros latifundiários da vizinhança. Com a casa havia também a habitual lenda sobre os ianques: uma das mulheres Finch, noiva há pouco tempo, vestiu o seu enxoval completo para a salvar dos invasores que se aproximavam; ficou, entretanto, presa na porta da Escadaria das Meninas, mas molharam-na toda e ela finalmente conseguiu se soltar. Quando chegamos à Fazenda, a tia Alexandra beijou o tio Jack, o Francis beijou o tio Jack, o tio Jimmy deu um aperto de mão silencioso ao tio Jack e eu e o Jem demos os nossos presentes ao Francis, que por sua vez também nos deu um presente. O Jem tomou, de repente, consciência da sua idade e gravitou rapidamente para a órbita dos adultos, me deixando sozinha entretendo o meu primo. O Francis tinha oito anos e o cabelo penteado para trás. — O que é que ganhou no Natal? — perguntei educadamente. — Aquilo mesmo que tinha pedido — respondeu-me. O Francis tinha pedido um par de calções, uma pasta para os livros em couro vermelho, cinco camisas e um laço. — Isso é muito legal — menti eu. — Olha eu e o Jem ganhamos umas espingardas de pressão e o Jem ainda ganhou um estojo de química... — Um de brincar? — Não, um de verdade. Vai me fazer tinta invisível para eu depois escrever ao Dill com ela. O Francis perguntou qual a utilidade daquilo. — Bem, imagina só a cara dele quando receber uma carta minha sem nada escrito? Vai ficar todo maluco! Falar com o Francis dava-me a sensação de estar descendo lentamente até ao fundo do mar. Era a criança mais aborrecida que algum dia tinha conhecido. Como vivia em Mobile, não podia fazer queixa de mim junto às autoridades escolares, mas arranjava mil maneiras de ir contar tudo o que sabia pra tia Alexandra, que por sua vez descarregava tudo no Atticus, que ou esquecia ou me infernizava a vida, dependendo da sua vontade. Mas a única vez que vi o Atticus falando agressivamente para alguém foi numa altura em que o ouvi dizer: — Mana, eu faço o melhor que posso com eles! — Acho que tinha alguma coisa a ver com o fato de eu andar de jardineiras. O tema do meu vestuário era uma verdadeira obsessão para a tia Alexandra. Nunca mais me tornaria numa senhora se usasse calções; quando eu lhe disse que para mim um vestido não tinha utilidade nenhuma, ela me respondeu que não era bonito eu andar fazendo coisas que exigissem um par de calças. A visão da tia Alexandra sobre o meu comportamento envolvia brincar com pequenos fogões, serviços de chá e usar o colar de pérolas que ela tinha me dado quando eu nasci; além disso, eu devia era ser um raio de sol na solitária vida do meu pai. Eu lembrei-a que também se pode ser um raio de sol com calças, mas a tia contra-argumentou que nós tínhamos que nos comportar como um raio solar, que eu nascera boazinha, mas que cada ano que passava eu estava pior. Me magoava constantemente e me deixava com os nervos em frangalhos, mas quando contei tudo ao Atticus, ele me sossegou, dizendo que já havia raios de sol que chega na família e para eu continuar a viver a minha vida, que ele não se importava muito com a minha maneira de ser. No jantar de Natal, fiquei sentada numa pequena mesa na sala de jantar; o Jem e o Francis ficaram sentados à mesa de jantar com os adultos. A minha querida tia insistia em isolar-me, mesmo depois do Jem e do Francis terem sido promovidos para a mesa grande. De vez em quando ficava imaginando o que é que ela pensava que eu era capaz de fazer. Levantar-me da mesa e atirar com qualquer coisa? Às vezes eu desejava pedir para ela me deixar sentar à mesa grande com as outras pessoas, para que lhe pudesse mostrar como eu era civilizada; afinal de contas, comia todos os dias em casa sem contratempos maiores. Quando pedi ao Atticus para fazer uso da sua influência, ele disse que não tinha nenhuma — éramos convidados, e sentávamos onde nos indicassem. Depois aproveitou para dizer que a tia Alexandra não compreendia muito bem as meninas pois nunca tinha tido uma. Mas os seus cozidos desculpavam tudo: três tipos de carne, legumes de Verão vindos diretamente das prateleiras da sua dispensa, pêssego em conserva, dois tipos de bolo e ambrosia, esta era a ementa do nosso modesto jantar de Natal. Mais tarde, os adultos dirigiram-se à sala de estar e sentaram-se num ligeiro estado de ébria sonolência. O Jem deixou-se ficar deitado no chão e eu fui para o quintal dos fundos. — Veste o casaco — disse o Atticus meio nas nuvens, por isso não lhe obedeci. O Francis sentou-se atrás de mim nos degraus. — Este foi sem dúvida o melhor jantar que tivemos — comecei. — A vó é uma ótima cozinheira — disse o Francis. — E vai me ensinar. — Os rapazes não cozinham — dei uma risada ao imaginar o Jem de avental. — A vó diz que todos os homens deviam aprender a cozinhar, qu’os homens devem ser cuidadosos com as suas mulheres e tomar conta delas quando elas não se sentem bem — afirmou o meu primo. — E eu lá quero que o Dill me sirva — disse eu. — Prefiro é servir a ele. — O Dill? — Sim. Não conte a ninguém, mas logo que formos suficientemente crescidos vamos casar. Pediu-me em casamento no Verão passado. O Francis começou a me gozar. — Mas qu’e qu’ele tem de mal? — perguntei eu. — Não há mal nenhum com ele. — Quer dizer aquele magricela de que a vó fala que vai para casa da Srta. Rachel todos os Verões? — Esse mesmo. — Sei tudo sobre ele — disse o Francis. — E o que é que sabe? — A vó disse que ele não tem casa... — Claro que tem, vive em Meridian. — ...que anda à deriva, de parente em parente, e que a Srta. Rachel fica com ele durante o Verão. — Isso é mentira, Francis! O Francis sorriu para mim. — Às vezes ‘ocê é mesmo burra, Jean Louise. ‘ocê é mesmo uma tapada, nem precebe as coisas que passam do teu lado, não é? — O que é que quer dizer com isso? — Se o tio Atticus te deixa andar com cães vadios, isso é problema dele, como a vó diz, por isso a culpa não pode ser tua. Pensando bem até ‘ocê não tem culpa por o Atticus ser amigo dos negros, mas problema é qu’isso anda preocupando o resto da família... — Francis, que diabo quer dizer com isso? — Apenas aquilo que já te disse. A vó diz que já é ruim ele te deixar andar por aí vadiando, mas agora que se tornou amigo dos negros nunca mais poderemos voltar a andar pelas ruas de Maycomb. Está arruinando a família, é isso que ele está fazendo. O Francis levantou-se e correu pelo passadiço de madeira até à velha cozinha. Quando atingiu uma margem de segurança gritou: — Não passa é de um amiguinho dos negros! — Não é nada! — eu rugi. — Não sei do que tá falando, mas é bom que retire neste preciso momento! Fiquei de pé num pulo e comecei a correr pelo passadiço abaixo. Foi fácil pegar o Francis pelo colarinho. Ordenei que ele retirasse depressa o que tinha dito. O Francis deu um puxão para trás, soltou-se e enfiou-se na cozinha velha: — Amigo dos negros! — gritou. Quando se está perseguindo uma presa, o melhor é fazê-lo com tempo. Se não falarmos, é tão certo como dois e dois serem quatro que ela acaba por ficar impaciente e sai da toca. O Francis apareceu na porta da cozinha. — Ainda está zangada, Jean Louise? — perguntou ele, cauteloso. — Não tenho nada p’ra falar — disse eu. O Francis veio para o passadiço. — Vai retirar o que disse, Fra... ancis? — só que não prestei a atenção devida. O Francis fugiu para a cozinha, por isso retirei-me para os degraus. Podia esperar pacientemente. Estava sentada há cinco minutos quando ouvi a tia Alexandra perguntar: — Onde é que está o Francis? — Foi p’ra lá, brincar na cozinha. — Ele sabe que não pode ficar brincando ali. O Francis veio na porta e gritou: — vó, ela me trancou aqui e agora não me deixa sair! — O que é que está acontecendo, Jean Louise? Virei a cabeça para cima e encarei a tia Alexandra: — Não tranquei ninguém ali, tia, nem o estou prendendo. — Está sim, vó — gritou o Francis — ela não me deixa sair! — Estiveram discutindo? — A Jean Louise está fula comigo, vó — disse o Francis. — Francis, vem aqui! Jean Louise, se ouço mais outra queixa sobre você, eu vou falar p’ro teu pai. Me parece que eu ouvir você dizer «diabo», é verdade? — Não, s’nhora. — Foi o que me pareceu. Espero não tornar a ouvir essas coisas. A tia Alexandra era uma mexeriqueira. Quando ela virou as costas o Francis veio para fora com a cabeça erguida e rindo. — Não se mete comigo — ameaçou. Saltou para o quintal e manteve a distância, dando pontapé em tufos de grama e, de vez em quando, virando e rindo para mim. O Jem veio à varanda, olhou para nós e voltou para dentro. O Francis trepou na acácia, desceu, meteu as mãos nos bolsos e começou a passear ao redor do quintal. — Ah! — recomeçou. Perguntei-lhe quem é que ele pensava que era, o tio Jack? O Francis disse que como tinham me dado uma valente descompostura, eu devia mais era ficar sentada e deixá-lo em paz. — Eu nem estou te incomodando — disse eu. O Francis me olhou de alto a baixo, concluiu que eu já tinha sido suficientemente humilhada e sussurrou em tom suave e provocador: — Amiguinho dos negros... Não aguentei, depois dessa eu até esfolei os nós dos dedos contra os dentes dele. Como fiquei lesionada na esquerda, aproveitei para lhe acertar com a direita, mas não por muito tempo. É que o tio Jack me segurou os braços e disse: — Parada, já! A tia Alexandra começou a tratar do Francis, enxugando-lhe as lágrimas com o lenço, ajeitando-lhe o cabelo e fazendo-lhe carícias no rosto. O Atticus, o Jem e o tio Jimmy já tinham chegado à varanda quando o Francis começou a chorar, aos gritos. — Quem é que começou? — perguntou o tio Jack. Eu e o Francis apontamos um para o outro. — ’Vó — balbuciou ele —, ela me chamou e saltou para cima de mim! — É verdade, Scout? — questionou o tio Jack. — Se ele diz. Quando o tio Jack olhou para mim, as suas feições ficaram parecidas com as da tia Alexandra. — Sabe que te disse que ainda ia se meter em apuros se usasse esse tipo de linguagem? Eu te avisei, não avisei? — Sim, senhor, mas... — Bom, e aqui está você metida num apuro e dos grandes. Fica aí. Me pus a pensar com os meus botões para ver se ficava ou fugia, só que demorei tempo demais pra tomar uma decisão: tentei me virar para escapar, mas o tio Jack foi mais rápido. Num abrir e fechar de olhos e lá estava eu, estendida no meio do relvado, observando uma formiguinha se debatendo com uma pequena migalha de pão. — Enquanto for viva, nunca mais falo contigo! Te detesto, te desprezo e espero que morra amanhã! Frase esta que, aliás, pareceu dar ainda mais ânimo ao tio Jack. Corri para o Atticus em busca de algum conforto, mas ele disse que eu já sabia que aquilo ia acabar acontecendo e que o melhor era irmos para casa porque já era tarde. Subi para o assento de trás do carro sem me despedir de ninguém e, uma vez chegada a casa, corri para o meu quarto e bati com a porta. O Jem tentou dizer alguma coisa agradável, mas não deixei. Quando fiz a inspeção geral aos danos reparei que só havia sete ou oito marcas vermelhas e estava refletindo sobre a sua relatividade quando alguém bateu na porta. Perguntei quem era; respondeu-me o tio Jack. — Sai daqui! O tio Jack disse que se eu lhe voltasse a falar assim ele voltava a me dar uma surra, por isso me mantive calada. Quando ele entrou no quarto refugiei-me num canto e virei-lhe as costas. — Scout — disse ele —, ainda está zangada comigo? — Por favor, vai embora, tio. — Mas porquê, se quer que te diga, achei que você não ia ficar chateada comigo — disse ele. — Mas sabe, você me desiludiu... e já sabia que isso ia acontecer. — Não sabia nada! — Querida, não pode andar por aí insultando as pessoas... — Não ’tá sendo justo — disse eu — não ’tá sendo justo. O tio Jack ergueu as sobrancelhas. — Injusto? Mas porquê? — ’Ocê é muito simpático, tio Jack, e acho que vou continuar a gostar de ti mesmo depois do que me fez, só que ’ocê não compreende bem as crianças. O tio Jack colocou as mãos nas cinturas e olhou para mim: — E por que é que eu não compreendo as crianças, menina Jean Louise? Uma conduta igual à que teve exige muito pouca compreensão. Você foi indisciplinada, desordeira e malcriada... — Me dê uma oportunidade para te explicar? Não quero te incomodar, só quero que me deixem falar. O tio Jack sentou-se na cama. Uniu as sobrancelhas e começou a observar-me por baixo delas. — Continua — pediu. Eu respirei fundo. — Bem, em primeiro lugar, ’ocê nem sequer parou p’ra me deixar te contar a minha versão... caiu logo em cima de mim. Quando normalmente eu e o Jem brigamos o Atticus nunca ouve só a versão da história do Jem, ouve a minha tam’em e, em segundo lugar, ele me disse p’ra só dizer asneiras em casos de provocação extrema e o Francis me provocou o suficiente p’ra lhe arrancar a espinha... O tio Jack coçou a cabeça. — E qual é a tua versão da história, Scout? — O Francis ficou chamando nomes ao Atticus e eu quis que ele retirasse o que disse. — E o que é que o Francis falou do Atticus? — Amiguinho dos negros. Não sei bem o qu’e qu’isso quer dizer, mas a forma como Francis o disse... bom, agora deixa-me que te diga uma coisa, tio Jack, raios m’... juro por Deus que não volto a deixá-lo se sentar ali dizendo essas coisas do Atticus. — Foi disso que ele chamou ao Atticus? — Sim, senhor, chamou, e muito mais. Disse que o Atticus ia ser a ruína da família e que deixavam a mim e ao Jem andar por aí vadiando... Pela expressão no rosto do tio Jack, pensei que estava metida de novo em maus lençóis. Mas quando ele me disse «Temos de tratar do assunto» eu sabia que o Francis é que estava em maus lençóis. — Ora aí está um ótimo motivo para ir lá esta noite. — Por favor, deixa assim. Por favor. — De modo nenhum. Não tenciono deixar as coisas assim — disse ele. — É preciso que a Alexandra esteja a par disto. Só de pensar que... espera até eu pôr as mãos naquele rapaz... — Tio Jack, por favor me promete uma coisa, por favor. Promete que não vai contar nada disto ao Atticus. Ele... ele uma vez me disse para eu não me deixar afetar com as coisas que dizem sobre ele e eu prefiro que ele pense que nós estávamos lutando por outra coisa qualquer. Me promete, por favor... — Mas não me agrada mesmo nada que o Francis saia impune de uma coisa como esta... — Mas ele não saiu impune. Acha que pode fazer o curativo na minha mão? Ainda está sangrando um pouquinho. — Claro que sim, querida. Não conheço eu outra mão que me desse tanto prazer curar. Vem comigo? Com elegância e delicadeza, o tio Jack fez uma mesura guiando-me para o banheiro. Enquanto limpava e ligava os nós dos meus dedos, foi me entretendo com a história de um velho cavalheiro muito míope que tinha um gato chamado Arisco e que contava todas as tábuas na calçada sempre que ia à cidade. — Pronto, aqui está — exclamou. — Vai ficar com uma cicatriz muito pouco apropriada para uma senhora no teu dedo anelar. — Obrigado, Sr. Dr. Tio Jack. Tio, posso fazer uma pergunta? — Diga, minha cara senhora? — O que é uma prostituta? O tio Jack embrenhou-se noutra historieta sobre um velho primeiro-ministro que estava sentado na Câmara dos Comuns e que costumava ficar soprando penas para o ar, tentando mantê-las suspensas, enquanto à sua volta todo mundo parecia perder a cabeça. Acho que, de certa forma, estava tentando responder à minha pergunta, mas no entanto, não fazia sentido nenhum. Mais tarde, quando supostamente já devia estar na cama, desci até ao átrio para ir buscar um copo de água e ouvi o tio Jack e o Atticus na sala de estar: — Nunca vou casar, Atticus. — Porquê? — Porque posso vir a ter filhos. O Atticus afirmou: — Ainda tem muito que aprender, Jack. — Eu sei. Esta tarde, a tua filha ensinou-me a minha primeira lição. Disse-me que eu não compreendia muito bem as crianças e explicou-me porquê. E estava certa. Atticus, ela até me disse como é que eu devia tê-la tratado... Ó diacho, estou tão arrependido de ter batido nela. O Atticus soltou uma risada. — Ela mereceu, por isso não sinta muitos remorsos. Fiquei à espera, segurando a respiração, para ver se o tio Jack contaria ao Atticus a minha versão dos fatos. Mas ele não o fez. Em vez disso apenas murmurou: — A forma como ela usa toda aquela linguagem grosseira deixa muito pouco à imaginação. Mas ela nem sabe o significado de metade do que diz... imagina você que me perguntou o que era uma prostituta... — E você, lhe explicou? — Não, contei-lhe a história de Lord Melbourne. — Jack! Quando uma criança te pergunta algo, pelo amor de Deus, responda. Agora não faça disso uma encenação. As crianças são crianças, mas detectam uma resposta evasiva mais rapidamente do que os adultos, e a evasão só as confunde. Não... — meditou o meu pai — esta tarde te deram a resposta certa, mas pelas razões erradas. A malcriadez é uma fase por que todas as crianças passam e acaba por morrer com o tempo quando elas percebem que não chamam a atenção de ninguém através dela. Mas a raiva e a impulsividade não. E a Scout tem de aprender a manter a calma e aprender depressa, sobretudo perante o que lhe está reservado nestes próximos meses. Mas confesso que ela está melhorando. O Jem está ficando crescido e ela já segue um pouco o seu exemplo. Por vezes, o que ela precisa é de uma pequena ajuda. — Atticus, você nunca lhe tocou num fio de cabelo. — Por enquanto sim. Até agora consegui sempre resolver as coisas com ameaças. Jack, ela me aborrece e me testa o mais que pode. Metade das vezes não atinge o seu fim, mas que tenta, lá isso tenta. — Essa não é a resposta — disse o tio Jack. — Não, a resposta é que ela sabe que eu sei que ela tenta. E é isso que faz a diferença. O que me aborrece é que daqui a pouco tempo tanto ela como o Jem vão ter de engolir algumas coisas. Não me preocupa se o Jem mantém ou não a calma, mas a Scout não só está olhando para uma pessoa, como se atirando para cima dela, como se fosse o seu orgulho que estivesse em risco... Esperei que o tio Jack quebrasse a sua promessa. Ainda não tinha feito. — Atticus, a situação é assim tão grave? Ainda não teve muitas oportunidades para falar nisso. — Não podia ser pior, Jack. A única coisa que temos é a palavra de um negro contra a dos Ewells. E as provas reduzem-se a um simples «Foi você — Não fui». Não podemos ficar esperando que o júri sobreponha a palavra do Tom Robinson à dos Ewells... você conhece os Ewells? O tio Jack disse que sim, que se lembrava deles. Descreveu-os ao Atticus, mas o Atticus disse: — Está uma geração atrasado. Mas os de agora são iguaizinhos. — Então, o que é que vai fazer? — Antes de acabar, pretendo chocar um bocado o júri... mas acho que tenho boas hipóteses no recurso. Neste momento, não sei te dizer, Jack. Sabe, esperava passar pela vida sem ter um caso destes, mas verdade é que o John Taylor apontou para mim e disse «Você é a pessoa ideal». — Te passou a batata quente, certo? — Certo. E você acha que eu conseguiria encarar os meus filhos de outra forma? Sabe tão bem como eu o que vai acontecer, Jack, e espero e rezo conseguir fazer com que a Scout e o Jem ultrapassem isto sem grandes amarguras, e acima de tudo, sem pegarem a habitual doença de Maycomb. Vá lá entender por que é que as pessoas sensatas se transformam completamente em doidos varridos quando surge alguma coisa que envolve um negro. É algo que eu ainda não entendi... Só espero que o Jem e a Scout saibam procurar as respostas em mim e não no que se diz pela cidade. Espero que confiem suficientemente em mim... Né Jean Louise? Em pânico, senti que tinham me descoberto na tocaia. Meti a cabeça por entre a porta, mostrando-me. — Pai? — Vai para a cama. Corri para o meu quarto e me meti na cama. O tio Jack tinha sido um verdadeiro cavalheiro em não desonrar o nosso compromisso. Mas nunca consegui descobrir como é que o Atticus sabia que eu estava escutando e só muitos anos depois é que percebi que o seu objetivo, naquela noite, era mesmo que eu ouvisse cada uma das suas palavras.

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