quarta-feira, 21 de setembro de 2016
o sol é para todos 3
XXII
AGORA ERA O JEM que estava chorando. Lágrimas de raiva corriam-lhe em sulcos
pelo rosto enquanto tentávamos passar pela multidão exultante.
— Não é justo — murmurava, até chegarmos à esquina da praça onde Atticus estava
à nossa espera. O Atticus estava parado debaixo de um candeeiro como se nada tivesse
acontecido: tinha o colete abotoado, o colarinho e a gravata estavam impecavelmente no
local, a corrente do relógio brilhava e mostrava-se, de novo, impassível.
— Não é justo, Atticus — disse o Jem.
— Não, filho, não é justo.
Estávamos indo para casa.
A tia Alexandra estava à nossa espera. Estava de roupão e eu podia jurar que ela tinha
o espartilho vestido.
— Sinto muito, meu irmão — murmurou. Nunca tinha ouvido chamá-lo «irmão»,
por isso olhei para o Jem, mas reparei que ele não me ouvia. Olhava fixamente para o
Atticus, depois para o chão e dei por mim pensando se ele achava que o Atticus era de
alguma forma responsável pela condenação do Tom Robinson.
— Tem certeza que ele está bem? — perguntou a tia, apontando para o Jem.
— Vai ficar — disse o Atticus. — Foi um bocado forte para ele.
O nosso pai soltou um suspiro.
— Vou para a cama — disse ele. — Se não acordar de manhã, não me chamem.
— Devo te dizer que, desde o início, não achei sensato deixá-los...
— Mas esta é a terra deles, minha irmã — respondeu o Atticus. — Nós a fizemos
assim e é melhor que aprendam a se adaptar.
— Só que eles não têm necessidade de ir ao tribunal e se sujeitar a isso...
— Faz tudo parte de Maycomb County, tal e qual como os chás de caridade.
— Atticus... — os olhos da tia Alexandra demonstravam grande ansiedade. — É a
última pessoa do mundo que eu esperaria ver se tornar amarga por causa disto.
— Mas eu não estou amargurado, estou apenas cansado. Vou para a cama.
— Atticus — interrompeu o Jem friamente.
Ele chegou à porta e virou-se para trás.
— O que foi, filho?
— Como é que puderam fazer isto, como?
— Não sei, só sei que o fizeram. Já o fizeram antes, voltaram a fazê-lo hoje e vão
voltar a fazer isto e quando isso acontece... parece que só as crianças é que choram. Boanoite.
Só que, de fato, as coisas parecem sempre bem melhor de manhã. O Atticus levantouse
à sua assustadora hora habitual e já estava na sala atrás do The Mobile Register quando
entramos. A cara matinal do Jem fez aquela pergunta que os seus lábios ensonados eram
incapazes de fazer.
— Ainda não é hora para nos preocuparmos — assegurou o Atticus, enquanto nos
dirigíamos para a sala de jantar. — Ainda não terminamos. Podemos contar com um
recurso... Meu Deus, Cal. O que é isto?
O Atticus olhava com espanto para o seu prato de café da manhã.
A Calpurnia disse:
— Foi o pai do Tom Robinson que mandou esta galinha de manhãzinha. E eu a
preparei.
— Diga-lhe que me sinto muito honrado com a oferta... aposto que nem na Casa
Branca não comem galinha no café da manhã.
— E isto, o que é?
— Brioches — respondeu a Calpurnia. — Foi a Estelle lá do hotel qu’ os mandou.
Confuso, Atticus olhou para ela e ela disse:
— O melhor é ir ’té à cozinha e ver co’os seus próprios olhos, Sr. Finch.
Fomos atrás dele. A mesa da cozinha estava transbordando de tanta comida que
chegava para alimentar toda a família: carne de porco em salmoura, tomates, feijão e até
uvas. O Atticus sorriu ao encontrar um frasco de pés de porco em conserva.
— Será que a tia nos deixa comer isto tudo na sala de jantar?
A Calpurnia respondeu:
— Quando cheguei de manhã, isto já ’tava nas escadas dos fundos. Eles... eles
apreciaram bastante o qu’o senhor fez, Sr. Finch. Eles... eles não estão abusando, né?
De repente, os olhos do Atticus se encheram de lágrimas. Por momentos, perdeu a
fala.
— Diga-lhes que estou muito, mas muito grato — disse ele. — E diga-lhes... digalhes
para não voltarem a fazer isto. Estamos vivendo dias difíceis...
Depois saiu da cozinha, entrou na sala de jantar e se desculpou perante a tia
Alexandra. Pôs o chapéu e partiu para a cidade.
Ouvimos os passos do Dill no átrio, por isso a Calpurnia optou por deixar na mesa
do café da manhã do Atticus intacta. Entre uma dentada e outra, o Dill nos contou a
reação da Srta. Rachel aos acontecimentos da noite passada: se um homem como o
Atticus quisesse bater com a cabeça contra uma parede, isso era lá com ele.
— Eu queria lhe contar tudo — resmungou o Dill, mordiscando uma perna de
galinha — mas ela não estava nem dando bola. Disse qu’ tinha passado metade da noite
acordada pensando por onde é qu’eu andava e que só não pôs o Xerife atrás de mim
porque ele estava no tribunal.
— Tem de deixar de sair sem dizer para onde vai, Dill — aconselhou o Jem. — Isso
só faz com que ela fique ainda mais furiosa.
O Dill suspirou pacientemente.
— Mas eu lhe disse para onde ia até ficar roxinho... mas ela anda vendo coisas onde
não existem. Vocês sabem que todas as manhãs aquela mulher bebe mais de meio litro de
cerveja no café da manhã... eu sei que ela bebe dois copos cheios. Eu já isso, e outras
mais.
— Não fale assim, Dill — disse a tia Alexandra. — Não é linguagem própria para
uma criança. Está sendo... cínico.
— Não é cínico, Srta. Alexandra. É cínico dizer a verdade, hem?
— Da maneira como diz, é.
Os olhos do Jem brilharam na direção dela, mas depois virou-se para o Dill:
— Vamos lá. Pode levar essa perna contigo.
Quando chegamos à varanda da frente, a Srta. Stephanie Crawford estava entretida
contando tudo a Srta. Maudie Atkinson e ao Sr. Avery. Olharam para nós e continuaram
falando. Jem rosnou como um animal acossado. Eu só queria ter uma arma ali na mão.
— Detesto que os adultos olhem para nós — disse o Dill. — Parece que fizemos
alguma coisa de errado.
O nariz da Srta. Stephanie tremia de tanta curiosidade. Ela queria saber quem é que
tinha nos dado autorização para ir ao tribunal... ela não nos vira, mas toda a cidade já
sabia que tínhamos ficado no balcão das pessoas de cor. Será que o Atticus tinha nos
posto lá para...? Não ficava bem estarmos ao lado de todos aqueles...?
Será que a Scout tinha percebido todas as...? E será que não estaríamos furiosos por
assistir à derrota do nosso pai?
— Cale-se, Stephanie — a dicção da Srta. Maudie era quase letal. — Tenho mais o
que fazer do que passar a manhã toda aqui na varanda... Jem Finch, te chamei para saber
se você e os teus amigos querem vir aqui comer bolo. Me levantei às cinco da manhã
para o fazer, por isso é bom que diga que sim. Sem desculpas, Stephanie.
— Bom-dia, Sr. Avery.
Pousados sobre a mesa da cozinha da Srta. Maudie, estavam dois bolos pequenos e
um grande. Onde deviam estar três bolos pequenos. Não era normal a Srta. Maudie se
esquecer do Dill e acho que, pelas nossas caras, ela percebeu o lapso. Mas tudo ficou
resolvido quando cortou o bolo em fatias e deu a mais fina ao Jem.
Enquanto comíamos, percebemos que esta era a forma da Srta. Maudie nos fazer
perceber que, para ela, nada tinha mudado. Sentou-se, silenciosa, na cadeira da cozinha
nos observando.
Subitamente, começou a falar:
— Não se preocupe, Jem. Nada é tão mau como parece.
Dentro de casa, quando a Srta. Maudie nos queria dizer alguma coisa mais demorada,
colocava as mãos sobre os joelhos e ajeitava a saia. Decidimos esperar durante aquele
ritual.
— Só quero lhes dizer que, neste mundo, há homens que nascem só para fazerem as
tarefas desagradáveis por nós. E o vosso pai é uma dessas pessoas.
— Ah — disse o Jem —, entendi.
Não me venha com esse «Ah, entendi» — replicou a Srta. Maudie, reconhecendo os
ruídos fatalistas do Jem —, não tem idade suficiente para entender o que eu disse.
O Jem olhava para a sua fatia meia comida.
— É como ser uma lagarta dentro de um casulo, é isso — disse ele. — Como uma
coisa adormecida num local quente. Sempre pensei que as pessoas de Maycomb eram as
melhores pessoas do mundo, pelo menos era o que parecia.
— Somos as pessoas mais seguras do mundo — disse a Srta. Maudie. — Raramente
nos pedem para sermos bons cristãos, mas quando pedem, então temos pessoas como o
Atticus que vão na nossa vez.
O Jem sorriu, tristonho.
— Quem me dera que todos pensassem assim.
— Ficaria surpreendido se soubesse quantos de nós pensam desta forma.
— Quem? — a voz do Jem subiu de tom. — Quem desta terra é que ajudou o Tom
Robinson? Quem?
— Em primeiro lugar, os seus amigos de cor e, em segundo, pessoas como nós.
Pessoas como o Juiz Taylor. Pessoas como o Sr. Heck Tate para de comer e começa a
pensar, Jem. Alguma vez pensou que a nomeação do Atticus, para defender aquele rapaz,
não foi um mero acidente? Que o Juiz Taylor poderia ter as suas razões para o escolher?
Era uma ideia plausível. As defesas oficiosas eram vulgarmente entregues a Maxwell
Green, o mais novo elemento do tribunal de Maycomb, que precisava de ganhar
experiência. O Maxwell Green é que deveria ter ficado com o caso de Tom Robinson.
— Pensa nisso — pediu a Srta. Maudie. — Aquilo não foi um acidente. Ontem à
noite, estava sentada na varanda, à espera. Esperei e esperei para vê-los descendo a rua e
enquanto esperava, ia pensando... O Atticus Finch não vai ganhar, ele não pode ganhar,
mas ele é o único homem das redondezas que pode fazer o júri demorar a tomar uma
decisão, num caso como este. E pensei aqui comigo, é um passo... um passo de bebê,
mas é um passo em frente.
— É muito fácil falar assim... mas não há juízes nem advogados cristãos que possam
compensar a imoralidade daqueles malditos jurados — murmurou o Jem. — Assim que
eu crescer...
— Isso é uma coisa que terá de ver com o teu pai — respondeu a Srta. Maudie.
Descemos os degraus novinhos em folha da casa da Srta. Maudie para o Sol e demos
com o Sr. Avery e a Srta. Stephanie Crawford ainda naquilo. Tinham andado alguns
passos e estavam agora na porta da casa da Srta. Stephanie. A Srta. Rachel preparava-se
para se juntar a eles.
— Acho que, quando crescer, vou ser palhaço — afirmou o Dill. O Jem e eu
paramos.
— Sim, senhor. Um palhaço — disse ele. — Não sei fazer mais nada a não ser rir
das pessoas, por isso vou para o circo passar a vida inteira rindo.
— Entendeu tudo ao contrário, Dill — disse o Jem. — Os palhaços são tristes e as
pessoas é que riem deles.
— Bem, então eu vou ser um novo tipo de palhaço. Vou ficar no meio da pista rindo
das pessoas. Olhem pr’ lá — apontou.
— Todo mundo devia voar em vassouras. A tia Rachel já faz isso.
A Srta. Stephanie e a Srta. Rachel nos acenavam, com gestos largos e exuberantes, que
em nada contradiziam o comentário do Dill.
— Oh não — suspirou o Jem. — Acho que pega mal fazer de conta que não as
vimos.
Algo de grave tinha acontecido. O Sr. Avery estava vermelho como uma pimenta
devido a um ataque de espirros, e quase nos soprou para fora da calçada quando nos
aproximamos. A Srta. Stephanie tremia de excitação e a Srta. Rachel agarrou o Dill pelo
ombro.
— Vai já para o quintal e não saia de lá — ordenou. — O perigo espreita.
— ’Que ’tá acontecendo? — perguntei.
— Ainda não sabe? Toda a cidade está comentando...
Naquele instante, a tia Alexandra apareceu na porta e nos chamou, só que já era tarde
demais. A Srta. Stephanie teve o prazer de nos contar tudo: naquela manhã, o Sr. Bob
Ewell tinha parado o Atticus na esquina dos correios, cuspira na cara dele e jurara
vingança, nem que isso demorasse a vida inteira.
XXIII
— SÓ GOSTARIA QUE O Bob Ewell não mascasse tabaco — foi tudo o que o Atticus
disse sobre o assunto.
No entanto, segundo a Srta. Stephanie Crawford, o Atticus estava saindo dos correios
quando Sr. Ewell se aproximou dele, insultou-o, cuspiu nele e ameaçou matá-lo. A Srta.
Stephanie (que, quando contou a história pela segunda vez, tinha estado lá e visto tudo...
enquanto passava pelo Jitney Jungle, dizia ela)...
A Srta. Stephanie disse que o Atticus nem sequer tinha pestanejado, apenas pegou no
lenço, limpou a cara e ficou ali, enquanto o Sr. Ewell lhe chamava nomes que nada no
mundo a faria repetir. O Sr. Ewell já era veterano de uma guerra obscura qualquer; além
disso, a reação pacífica do Atticus fê-lo perguntar «É orgulhoso demais p’ra lutar, seu
amigo de pretos d’uma figa?». A Srta. Stephanie disse que o Atticus respondeu «Não,
sou é velho demais», meteu as mãos aos bolsos e se afastou. A Srta. Stephanie disse que
tínhamos de reconhecer que, quando queria, Atticus Finch sabia ser muito parco em
palavras.
O Jem e eu não achamos o sucedido lá muito engraçado.
— Afinal de contas — lembrei eu — ele foi o melhor atirador do condado. Ele bem
que podia...
— Sabe bem que ele não anda armado, Scout. Nem sequer tem uma... — disse o Jem.
— Sabe bem qu’ naquela noite na prisão ele não tinha uma arma com ele. E ele me disse
qu’andar armado era um convite p’ra levar um tiro.
— Mas isto é diferente — respondi. — Podemos lhe dizer pra pedir uma
emprestada.
Assim fizemos e a resposta dele foi «Que absurdo».
Dill achava que funcionaria melhor se apelássemos ao seu bom-senso: pois se o Sr.
Ewell o matasse, nós morreríamos de fome e passaríamos a ser criados pela tia
Alexandra. E nós sabíamos perfeitamente que a primeira coisa que ela faria, antes
mesmo de o Atticus ter tempo de esfriar na cova, era despedir a Calpurnia.
O Jem disse que, seria melhor se eu chorasse e fingisse ter um ataque, por ser a mais
nova e ser uma menina. Mas também não resultou.
Porém, quando finalmente percebeu que andávamos cabisbaixos pela vizinhança, não
comíamos, nem nos interessávamos pelas atividades habituais, o Atticus descobriu que
estávamos profundamente assustados. Uma noite estava ele e o Jem com uma revista de
futebol nova, mas quando este a folheou e pôs de lado, perguntou:
— O que é que está te preocupando, filho?
O Jem foi direito ao assunto.
— Sr. Ewell.
— O que é que aconteceu?
— Não aconteceu nada. Temos medo por ’ocê e achamos que deve fazer alguma coisa
em relação a ele.
O Atticus sorriu secamente.
— Fazer o quê? Aplicar-lhe uma medida de caução.
— Quando um homem diz qu’ vai dar cabo de ’ocê, parece estar disposto a isso.
— Ele estava disposto a isso quando o disse — justificou o Atticus. — Jem, vê se
consegue se colocar no lugar de Bob Ewell. Naquele tribunal eu destruí o que restava da
sua credibilidade, se é que ele ainda tinha alguma. O homem tinha de se vingar de
alguma forma.
Este tipo de gente é assim mesmo. Se o fato de ter cuspido na minha cara e ter me
ameaçado de morte salvou Mayella de mais uma surra, então não me importo nada de
repetir. Ele tinha de se vingar em alguém e prefiro que se vingue em mim do que
naquelas crianças. Compreende agora?
O Jem acenou que sim com a cabeça.
A tia Alexandra entrou na sala quando o Atticus dizia:
— Não temos nada a temer do Bob Ewell. Naquela manhã, ele já colocou tudo o que
queria aqui para fora.
— Eu não estaria tão certa disso, Atticus — disse ela. — Aquela gente é capaz de tudo
para se vingar. Sei bem como são.
— O que é que o Ewell poderia me fazer, irmã?
— Algo pelas costas — disse a tia Alexandra. — Pode contar com isso.
— Ninguém tem muitas maneiras de fazer algo escondido em Maycomb —
respondeu o Atticus.
Aquilo fez com que perdêssemos o medo. O Verão estava terminando e decidimos
aproveitá-lo ao máximo. O Atticus tinha assegurado que nada iria acontecer ao Tom
Robinson até o tribunal superior rever o caso e que o Tom tinha boas hipóteses de ser
libertado, ou, pelo menos, de ser novamente julgado. Ele estava no Campo de Trabalhos
Forçados de Enfield, a cento e dez quilômetros dali, em Chester County. Perguntei ao
Atticus se a mulher e os filhos podiam visitá-lo, mas o Atticus disse que não.
— O que é que vai lhe acontecer — perguntei certa noite — se ele perder o recurso?
— Vai para a cadeira elétrica — respondeu o Atticus — a menos que o Governador
decida alterar a sua pena. Ainda não é o momento para preocupações, Scout. Temos boas
chances.
O Jem estava esticado no sofá lendo a Popular Mechanics.
Levantou os olhos.
— Não é justo. Mesmo que fosse culpado, ele não matou ninguém.
Ele não tirou a vida a ninguém.
— Sabe bem que o estrupo é um crime capital no estado do Alabama — disse o
Atticus.
— Sei, sim senhor, mas o júri não era obrigado a condená-lo à morte... podiam terlhe
dado vinte anos, se quisessem.
— Poderia — disse o Atticus. — Mas o Tom Robinson é um homem de cor, Jem.
Não há um único júri nesta parte do mundo que fosse capaz de dizer «Achamos que é
culpado, mas não muito» face a uma acusação destas. Ou era absolvição direta ou nada.
O Jem abanava a cabeça.
— Eu sei que não é justo, mas não consigo perceber o que está errado... talvez o
estrupo não devia ser um crime capital...
O Atticus pousou o jornal ao lado da sua cadeira. Depois disse que não tinha nada
contra as penas previstas para o crime de violação, mas tinha sérias reservas quando a
acusação pedia, ou o júri condenava, a pena de morte mediante provas meramente
circunstanciais.
Em seguida olhou para mim, viu que eu estava ouvindo e traduziu tudo em detalhes.
— O que eu quero dizer é que, antes de um homem ser condenado à pena de morte,
deveria haver uma ou duas testemunhas oculares. Existir alguém que possa dizer «Eu
estava lá e o vi apertar o gatilho».
— Mas houve... houve muita gente enforcada só com base em provas circunstanciais
— retorquiu o Jem.
— Eu sei e, provavelmente, muitos merecidamente... mas na falta de testemunhas
oculares a dúvida persiste sempre, às vezes apenas a sombra de uma dúvida. A lei fala de
«dúvida razoável», mas acho que o réu tem o direito à sombra de uma dúvida. Há
sempre a possibilidade, por muito improvável que seja, de ele estar inocente.
— Então fica tudo nas mãos do júri. Talvez devíamos era nos livrar dos jurados —
teimava o Jem.
O Atticus tentou disfarçar o sorriso, mas não conseguiu.
— Está sendo duro demais conosco, filho. Talvez haja uma forma melhor. Mudar a
lei. Mudá-la para que só os juízes possam fixar as penas em casos de crime capital.
— Então vá a Montgomery e mude a lei.
— Ficaria espantado se soubesse como isso é difícil. Eu sei que não vou viver o
tempo suficiente para ver a lei mudar e mesmo que você viva o suficiente para ver isso,
nessa altura já será um homem velho.
Para Jem, aquele argumento não bastava.
— Não, senhor. Eles deviam se livrar dos júris. Ele não era culpado e eles disseram
que era.
— Filho, se você, e mais outros onze rapazes como você, fizessem parte daquele júri,
o Tom seria um homem livre — disse o Atticus.
— Até agora, ao longo da tua vida, nada interferiu com o teu processo de raciocínio.
O júri que condenou o Tom era composto por doze homens razoáveis, mas houve algo
que se interpôs entre eles e a razão. E houve a mesma coisa naquela noite em frente à
prisão. Quando eles foram embora, não foi por serem homens razoáveis, mas sim
porque nós estávamos lá. No mundo em que vivemos existem coisas que fazem com
que os homens percam a cabeça... por muito que tentassem, aquela gente jamais
conseguiria ser justa. Nos tribunais, quando a palavra de um branco vai contra a palavra
de um homem negro, a vitória pertence sempre ao branco. Não é bonito, mas a vida é
mesmo assim.
— Isso não faz com que seja justo — afirmou o Jem, com firmeza.
Bateu devagar com o punho sobre o joelho.
— Não se pode condenar um homem com provas destas... não se pode.
— Não se pode, mas eles puderam e fizeram. Quanto mais velho for, melhor verá
tudo isto. O único local onde um homem deve ser tratado de forma justa é dentro de um
tribunal, seja ele de que cor for, mas os homens acabam sempre por levar os seus
ressentimentos para as cadeiras do júri. À medida que for crescendo, e durante todos os
dias da tua vida, verá sempre homens brancos enganando homens negros, mas deixe eu
te dizer uma coisa que nunca mais vai se esquecer... sempre que um homem branco fizer
algo a um homem negro, independentemente da sua natureza, posição, riqueza ou
linhagem familiar, esse homem branco nada mais é senão lixo.
O Atticus estava falando tão baixo que aquela última palavra ressoou nos nossos
ouvidos. Olhei para cima e o seu rosto transparecia veemência.
— Para mim não há nada mais repugnante do que um branco de quinta categoria
tirando partido da ignorância de um negro. E não se iludam... Tudo está se acumulando
e, um dia, ainda vamos pagar essa fatura. Só espero que não seja enquanto forem
crianças.
O Jem coçava a cabeça. De repente, arregalou os olhos.
— Atticus — disse. — Por que é que pessoas como nós e a Srta. Maudie nunca se
sentam nas cadeiras do júri? Nunca se vê ninguém de Maycomb no júri... vêm todos lá
dos bosques.
O Atticus recostou-se na sua cadeira de balanço. Por alguma razão, ele parecia
bastante satisfeito com o Jem.
— Estava mesmo pensando quando é que ia lembrar disso — comentou. — Há
muitas razões. Primeiro, a Srta. Maudie não pode fazer parte de um júri porque é
mulher...
— Quer dizer que as mulheres do Alabama não podem...? — perguntei, indignada.
— É isso mesmo. Acho que é para proteger as nossas frágeis senhoras de casos
sórdidos como o do Tom. Além disso — e o Atticus sorriu — duvido que
conseguíssemos levar o julgamento até ao fim... as mulheres passariam a vida nos
interrompendo para fazer perguntas.
Rimos. Seria, de fato, impressionante ver Srta. Maudie no júri.
Pensei na velha Sra. Dubose, sentada na sua cadeira de rodas...
«Pare de martelar, John Taylor. Eu quero é fazer uma perguntinha a este homem».
Os nossos antepassados é que deviam ter razão.
O Atticus estava dizendo:
— Com pessoas como nós... essa é a nossa quota da fatura. Normalmente temos o
júri que merecemos. Em primeiro lugar, os firmes e decididos cidadãos de Maycomb
não estão interessados. E em segundo lugar, têm medo. Depois, estão...
— Medo? Porquê? — perguntou o Jem.
— Bem, e se... digamos que o Sr. Link Deas tivesse de decidir o montante da
indenização a pagar a, digamos, para a Srta. Maudie, quando esta foi atropelada pelo
carro da Srta. Rachel. O Link não iria gostar da ideia de perder qualquer uma das
clientes da loja, né? Por isso, ele diz ao Juiz Taylor que não pode ser um dos jurados
porque não tem ninguém para tomar conta da loja na sua ausência. Daí o Juiz Taylor o
dispensa. E às vezes já o tem dispensado mesmo a contragosto.
— O qu’o fez pensar qu’qualquer uma delas podia deixar de fazer negócio co’ele? —
perguntei.
— A Srta. Rachel deixaria, quase de certeza, mas a Srta. Maudie não. Mas o voto de
um jurado é secreto, Atticus. — Disse o Jem.
O nosso pai encolheu os ombros.
— Ainda tem muito caminho a percorrer, filho. Supostamente o voto é secreto. Mas
fazer parte de um júri obriga um homem a pensar e decidir por si próprio sobre alguma
coisa. E os homens não gostam de fazer isso. Às vezes é desagradável.
— O júri do Tom decidiu bem rápido — murmurou o Jem.
Os dedos do Atticus procuraram o seu relógio de bolso.
— Não, não decidiu. — Disse ele, mais para si próprio do que para nós. — Foi isso
que me fez pensar, bem, que este podia ser o início de qualquer coisa nova. Aquele júri
demorou umas horas a decidir. Talvez tenha sido um veredito inevitável, mas
normalmente demora só uns minutos. E todo esse tempo... — parou e olhou para nós.
— Bom, talvez gostassem de saber que houve um sujeito que se opôs
consideravelmente... no início exigiu uma absolvição direta.
— Quem? — o Jem mostrava-se abismado.
Os olhos do Atticus brilharam.
— Eu não devia dizer isto, mas só digo uma coisa. Era um dos seus amigos de Old
Sarum...
— Um dos Cunninghams? — gritou o Jem. — Um dos... não reconheci nenhum
deles... ’tá brincando.
Olhou para o Atticus pelo canto do olho.
— Um dos seus parentes. Não o dispensei porque tinha um palpite... Um palpite.
Podia dispensá-lo, mas não o fiz.
— Meu deus — disse o Jem, com reverência. — Tão depressa o queriam matar
como logo a seguir já estavam tentando libertá-lo... Por mais que viva, nunca vou
entender aquela gente.
O Atticus disse que era preciso conhecê-los para os compreender.
Ele disse que os Cunninghams nunca tinham tirado nem recebido nada de ninguém
desde que tinham imigrado para o Novo Mundo. Também disse que, uma vez
conquistado o seu respeito lutariam por nós com unhas e dentes. O Atticus confessou
que tinha um pressentimento, não mais que uma suspeita, que, quando saíram da prisão
naquela noite, tinham ganho um respeito considerável pelos Finchs. Além disso, disse
ele, era preciso juntar um raio, um trovão e mais outro Cunningham para os fazer
mudar de ideia.
— Se ao menos tivéssemos dois deles no meio do júri, tínhamos conseguido
bloquear a decisão dos jurados.
O Jem disse lentamente:
— Quer dizer que incluiu propositadamente no júri um homem que tinha tentado te
matar na noite anterior? Como pode correr esse risco, Atticus? Como?
— Quando analisei a opção, o risco era pequeno. Não há muita diferença entre um
homem que sabe que vai condenar e outro homem que também sabe que vai condenar,
né? Mas há uma pequena diferença entre um homem que sabe que vai condenar e outro
homem que está um pouco confuso, não há? Ele era a minha única dúvida na lista toda.
— Que parentesco tinha esse homem com o Sr. Walter Cunningham? — perguntei.
O Atticus levantou-se, espreguiçou-se e bocejou. Ainda não estava na hora de irmos
para a cama, mas sabíamos que ele queria uma oportunidade para ler o seu jornal. Pegou
nele, dobrou-o e deu-me uma palmadinha na cabeça.
— Deixa-me ver — murmurou para si mesmo. — Já sei. Duas vezes primo em
primeiro grau.
— E como é qu’isso pode ser?
— Duas irmãs casaram com dois irmãos. E não lhes conto mais nada... descubram
vocês o resto.
Torturei-me pensando e deduzi que se eu casasse com o Jem e o Dill tivesse uma
irmã e casasse com ela, os nossos filhos seriam duas vezes primos em primeiro grau.
— Deus me livre, Jem — disse, quando o Atticus saiu — que gente mais estranha.
Ouviu isto, tia?
A tia Alexandra estava bordando um tapete. Embora não estivesse de olho em nós,
sempre lhe chegava alguma coisa ao ouvido.
Estava sentada na sua cadeira, com o cesto de trabalho ao lado e o tapete no colo.
Nunca consegui entender muito bem por que é que as senhoras bordavam tapetes de lã
em noites tão quentes.
— Ouvi — respondeu ela.
Lembrei-me daquela ocasião, distante e desastrosa, quando corri em defesa do jovem
Walter Cunningham. Agora estava feliz por tê-lo feito.
— Assim que começar a escola, vou convidar o Walter para vir almoçar aqui em casa
— planejei, esquecendo a minha resolução privada de o encher de pancada da próxima
vez que o visse.
— Agora também pode ficar às vezes aqui em casa depois da escola. O Atticus podia
levá-lo até Old Sarum de carro. Talvez até podia dormir aqui de vez em quando, não
acha, Jem?
— Vamos ver — disse a tia Alexandra, uma declaração que, vindo dela, soava sempre
a ameaça e nunca a uma promessa. Surpreendida, virei-me para ela.
— Mas por que não, tia? Eles são boa gente.
Ela olhou para mim por cima dos seus óculos de costura.
— Jean Louise, não tenho dúvidas de que são boa gente. Mas eles não são o nosso
gênero de pessoas.
— Ela quer dizer que são uns rústicos, Scout.
— O que é um rústico?
— Oh, camponês. Gostam de tocar rabecas e coisas assim.
— Eu também...
— Não seja tonta, Jean Louise — disse a tia Alexandra. — Podíamos esfregar o
Walter Cunningham até brilhar, meter-lhe uns sapatos e um terno novo, mas ele nunca
seria como o Jem. Além disso, aquela família tem uma longa história de bebida. As
moças Finch não se interessam por aquele tipo de gente.
— Tia — disse o Jem —, ela ainda nem tem nove anos.
— Mais vale aprender enquanto é tempo.
A tia Alexandra tinha dito a sua ordem. De repente, me recordei da última vez em que
ela bateu o pé no chão. Nunca soube porquê.
Foi numa altura em que eu estava absorvida nos meus planos para visitar a casa da
Calpurnia... estava bastante curiosa, interessada; queria ser sua «convidada», ver como
vivia e quem eram os seus amigos. Era como se eu quisesse ver o outro lado da Lua.
Desta vez a tática fora diferente, mas o objetivo da tia Alexandra era o mesmo.
Provavelmente tinha sido por isso que ela tinha vindo viver conosco... para nos ajudar a
escolher os amigos. Estava decidida a impedi-la custasse o que custasse.
— Mas se eles são boas pessoas, por que é que não posso ser simpática para o
Walter?
— Eu não disse para não ser simpática com ele. Deve ser simpática e educada com
ele. Deve ser gentil com todo mundo, querida. Mas não tem de o convidar aqui para
casa.
— E se ele fosse nosso parente, tia?
— O fato é que ele não é nosso parente, mas se fosse, a minha resposta era a mesma.
— Tia — começou o Jem —, o Atticus diz qu’a gente pode escolher os nossos
amigos, mas qu’ não pode escolher a nossa família.
E que depois continuam a ser nossos parentes quer queiramos quer não, e qu’ depois
parecemos todos uns tolos se não os aceitarmos.
— É mesmo típico do teu pai — disse a tia Alexandra — mas continuo dizendo que a
Jean Louise não pode convidar o Walter Cunningham para dentro desta casa. Mesmo
que ele fosse duas vezes primo em primeiro grau, há muito afastado do seio da família,
continuaria a não ser recebido nesta casa, a menos que viesse tratar de assuntos
profissionais com o Atticus. E o assunto está encerrado.
Ela já tinha dito que não, mas desta vez teria de explicar os motivos.
— Mas eu quero brincar com o Walter, tia. Por que é que não posso?
Ela tirou os óculos e olhou fixamente para mim.
— Sabe porquê, sabe? Porque... ele... é... lixo, e é por isso que não pode brincar com
ele. Não quero que ande com ele. Pode aprende os seus hábitos e sabe Deus que mais. Já
dá demasiadas dores de cabeça ao teu pai.
Não sei o que me passou pela cabeça, mas o Jem impediu-me de agir. Agarrou-me
pelos ombros, me abraçou e me levou até ao quarto, soluçando furiosamente. O Atticus
nos ouviu e meteu a cabeça por entre a porta.
— Está tudo bem, pai — disse o Jem em voz baixa. — Não é nada.
O Atticus foi-se embora.
— Toma um caramelo, Scout — Jem mexeu no bolso e tirou um Tootsie Roll.
Demorei uns minutos dando uma forma confortável ao caramelo.
O Jem estava arrumando umas coisas na cômoda. O cabelo dele estava todo espetado
na nuca e caía sobre a testa. Será que algum dia iria se parecer com um homem? Se
rapasse o cabelo, este talvez voltasse a crescer em condições. As sobrancelhas estavam
ficando mais grossas e reparei que o seu corpo estava ficando mais elegante.
Além disso, estava ficando mais alto.
Quando olhou para mim, deve ter pensado que eu ia voltar a chorar, pois disse:
— Vou te mostrar uma coisa se prometer não contar a ninguém.
— O quê? — perguntei
Desabotoou a camisa, sorrindo envergonhado.
— Então? — voltei a perguntar.
— Então, não consegue ver?
— Não.
— Bem, é um pelo.
— Aonde?
— Aqui. Aqui mesmo.
Uma vez que ele me tinha apoiado tanto, disse que era muito interessante, embora não
tivesse visto nada.
— Que legal, Jem.
— Também tenho debaixo dos braços — prosseguiu. — p’oxmo ano vou p’ro
futebol. Scout, não deixe qu’a tia t’enerve.
Parecia que tinha sido ontem que ele me dissera para não incomodar a tia.
— Sabe que ela não está habituada a moças — explicou o Jem — muito menos a
moças como ’ocê. Ela está tentando fazer de ti uma senhora. Não pode aprender a
bordar ou coisa assim?
— Nem pensar. Ela não gosta de mim. É tão simples quanto isso e eu não me
importo mesmo nada. Só fiquei assim p’que ela chamou o Walter Cunningham de lixo,
Jem. Não foi por ter dito qu’ eu só dava dores de cabeça ao Atticus. Já esclareci isso
tudo co’ ele e ele disse qu’ não, qu’eu até não lhe dou grandes dores de cabeça.
Melhor dizendo, que eu era uma dor de cabeça qu’ele conseguia resolver e depois
disse p’ra eu não me preocupar mais co’ isso. Na, foi pelo Walter... aquele menino não é
lixo, Jem. Ele não é como os Ewells.
O Jem descalçou os sapatos e começou a balançar os pés em cima da cama. Encostouse
na almofada e ligou a luz de leitura.
— Sabe que mais, Scout? Eu agora percebi tudo. Tenho pensado muito nisso e já
percebi tudo. No mundo há quatro tipos de pessoas. Há o tipo de pessoas normais
como nós e os nossos vizinhos, o tipo de pessoas dos bosques, como os Cunninghams,
o tipo de pessoas que vivem em lixeiras, como os Ewells e os negros.
— Então e os chineses e os índios Cajun, p’ra lá em Baldwin County?
— Eu quero dizer que em Maycomb. O que acontece é que as pessoas como nós não
gostam dos Cunninghams, os Cunninghams não gostam dos Ewells e os Ewells odeiam
e desprezam as pessoas de cor.
Disse ao Jem que, se era assim, então por que é que o júri do Tom, constituído por
pessoas como os Cunninghams, não tinha absolvido o Tom em vez dos Ewells?
O Jem repeliu a minha pergunta como se fosse uma infantilidade.
— Sabe — disse ele —, já vi o Atticus batendo o pé ao som de violino no rádio e,
mais do que qualquer homem que conheço, ele também gosta do seu licorzinho
caseiro...
— E isso faz com qu’a gente seja igual aos Cunninghams — disse eu. — Não ’tô
entendo por que é que a tia...
— Não, m’ deixa acabar... ele faz, mas, de alguma maneira, continuamos a ser
diferentes. O Atticus me disse uma vez que o motivo pelo qual a tia tem tanto orgulho
na família é porque tudo o que temos é nome e antecedentes, só que não temos um
tostão.
— Bem, Jem, eu não sei... O Atticus disse-me uma vez que esta história de família
antiga era uma tolice sem tamanho, porque a família de todos é tão velha como a de
qualquer um. Eu perguntei se isso incluía os negros e os ingleses e ele disse que sim.
— Nome e antecedentes não significa ter uma família antiga — contrapôs o Jem. —
Acho qu’ quer dizer há quanto tempo é qu’a família sabe ler e escrever. Scout, pensei
muito nisto e esta é a única razão que encontrei. Em alguma parte no passado, quando os
Finchs estavam no Egito, um deles deve ter aprendido um hieróglifo ou dois e ensinouos
ao seu filho — o Jem desatou a rir. — Imagina ocê... a tia toda orgulhosa do seu
tetravô saber ler e escrever... as senhoras escolhem umas coisas engraçadas p’ra se
orgulharem.
— Bem, fico feliz por ele saber, ou quem quer que tenha ensinado o Atticus a ler.
Abem dizer, se o Atticus não soubesse ler, então é que estávamos metidos numa grande
enrascada. Acho que os antecedentes não são isso, Jem.
— Então como é que se explica o fato de os Cunningham serem diferentes? O Sr.
Walter mal sabe assinar o nome. Isso eu já vi. Nós sabemos ler e escrever há mais tempo
do que eles.
— Não, todos temos d’ aprender, ninguém nasce sabendo. Aquele Walter é bem
esperto, reprova muitas vezes p’rque tem de ficar em casa pra ajudar o pai. Não há nada
de errado com ele. Não, Jem. Acho que só há um tipo de gente. Pessoas.
O Jem virou-se e bateu na almofada. Quando se recostou apresentava uma expressão
sombria. Tinha entrado numa das suas depressões habituais e eu fiquei logo alerta. Uniu
as sobrancelhas e a boca tornou-se numa linha fina. Durante algum tempo manteve-se
em silêncio.
— Eu também pensava assim — disse, por fim — quando tinha a tua idade. Se só
existe um tipo de pessoas, por que é que não se dão bem? E se todos somos iguais, por
que é que se esforçam tanto para se odiarem mutuamente? Scout, acho que estou
começando a perceber uma coisa. Estou começando a perceber por que é que o Boo
Radley se manteve fechado naquela casa durante todo este tempo... é porque ele quer
estar lá dentro.
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